quinta-feira, 15 de abril de 2010

Clube de Leitura no Ensino Nocturno - Continuação

Estes foram os poemas escolhidos...Deliciem-se!! E, já agora, Comam Chocolates!!

O silêncio é dos pássaros
Os que não têm pão
Da vida inesgotável
Cantam silêncio em prata nocturna
Prata secreta da noite
Vaga e fútil
Das quimeras amorosas na noite
Na noite das pratas
Das pratas roubadas ao senhor mais rico
Na vida dos pássaros
Na fuga da vida falhada aos gritos
Um grito na vida falhada aos gritos um grito na altura
No espaço
Entre a morte
E o último vagão da vida
Da vida dos pássaros
Numa sombra que nunca se deixa apanhar
Na luz que nunca se deixa pintar
Nem apagar mesmo no espelho
Que te abraçou na tormenta
Construída pelo lar fora
Pelo lar fora dos pássaros
O fora do risco que escapou ou vento
E no picar do nervoso do pássaro mais rico
Um dos pássaros mais ricos
E os dois mil voltes dum fio
Que pareceu em instantes
O peixe entre o vento
E o picar de nervoso do pássaro mais rico
Nem o homem nem o diabo
Nem a mulher
Nem a laborada
Mas os fogos todos inteiros
A mão de fogo constante
Inalteravelmente vermelho
No irremediavelmente delicado
Em seus arabescos de morte
No céu mais mudo do silêncio
Sumir em chamas
Para os pássaros nos tudo o que antes fora, a fuga entre a vida dos pássaros
No risco mais fino do silêncio
Entre o palpitar do mundo
E a vida dos pássaros
Arder muito simplesmente
Em fraca esperança
Na data medida do desejo de dentro
O dentro do fogo branco
O fogo – branco – desejo
Arder em pena cair do vento
No risco mais fino do silêncio
Entre o palpitar do desejo
E o silêncio que pertence aos pássaros

Fernando Lemos

Peregrino
No barco da minha vida
viajo marés de esperança
sou vela redonda lisa
um mastro na tarde mansa
Navego de longe a longe
dei voltas, voltas ao mundo
sou proa de areia e concha
um beijo no azul profundo
Não tenho beira nem rua
nem oiro que a terra adora
levo porões de amor
que entorno pelo mundo fora
Não tenho searas verdes
nem casa de vela acesa
no coração feito mala
transporto a minha riqueza
No vente das sete rosas
nas sete rosas do vento
o meu coração de espuma
à voz do mar ganha alente
Caminho na linha recta
do cais da minha ternura
onde o mar sabe a rosas
e há nascentes de água pura
Maria Natália Miranda
(Antologia) Poetas de Sempre
Emilia


PAZ NA TERRA
NESTA TERRA TÃO SOMBRIA
EU VIVO TÂO AUSENTE
COM FALTA DE ALEGRIA
E MUITAS VEZES DOENTE
VEM CANTAR UMA CANÇÂO
PARA ME DARES ALEGRIA
VEM DEPRESSA MEU IRMÂO
A VER RAIAR NOVO DIA
EU QUERO VER OS JOVENS
TODOS A DAR AS MÂOS
PARA QUANDO FOREM HOMENS
SEREM TODOS COMO IRMÂOS
QUERO VER PAZ NA TERRA
PARA VIVER EM AMIZADE
PORQUE A FELICIDADE
NUNCA SE FAZ COM GUERRA
ACABEM AS VINGANÇAS
PARA NINGUÉM SE AGREDIR
PARA VERMOS AS CRIANÇAS
COM O ROSTO A SORRIR
QUERO VER O SOL BRILHAR
NO AZUL CÉU REFLECTINDO
PARA ESTE MUNDO MELHORAR
PARA VER ROSTOS SORRINDO

AUTOR JOSÉ JOAQUIM DOS SANTOS

A GALINHA (excerto)

Minha mãe e minha tia foram à feira. Minha mãe com o meu pai e minha tia com o meu tio. Mas todos juntos. Na camioneta da carreira. Na feira compraram muitas coisas e a certa altura minha mãe viu uma galinha e disse:
- Olha que galinha engraçada.
E comprou-a também. Estava agachada como se a pôr ovos ou a chocá-los. Era castanha nas asas, menos castanha para o pescoço, e a crista e o bico tinham a cor de um bico e de uma crista. Nas costas levara um corte a toda a volta para se formar uma tampa e meterem coisas dentro, porque era uma galinha de barro. Minha tia, que se tinha afastado, veio ver, estava a minha mãe a pagar depois de discutir. E perguntou quanto custava. A mulher disse que vinte mil réis, minha tia começou aos berros, que aquilo só se o fosse roubar, e a mulher vendeu-lhe uma outra igual por sete mil e quinhentos. Minha mãe aí não se conformou, porque tinha regateado mas só conseguira baixar para doze e duzentos. A mulher disse:
- Foi por ser a última, minha senhora.
Minha tia confrontou as duas galinhas, que eram iguais, achando que a de minha mãe era diferente.
- Só se foi por ser mais cara - disse minha mãe com a ironia que pôde.
Minha tia aqui voltou a erguer a voz. Não se via que era diferente? Não se via que tinha o bico mais perfeito? E o rabo?
- Isto é lá rabo que se compare?
E tais coisas disse e tantas, com gente já a chegar-se, que minha mãe pôs fim ao sermão, por não gostar de trovoadas :
- Mas se gostas mais desta, leva-a, mulher.
Foi o que ela quis ouvir. Trocou logo as galinhas, mas ainda disse:
- Mas sempre te digo que a minha é de mais dura, basta bater-lhe assim (bateu) para se ver que é mais forte.
- Então fica com ela outra vez - disse minha mãe.
- Não, não. Trafulhices, não. Está trocada, está trocada.
Meu tio estava a assistir mas não dizia nada, porque minha tia dizia tudo por ele e, se dissesse alguma coisa de sua invenção, minha tia engolia-o. Meu pai também estava a assistir, mas também não dizia nada, por entender que aquilo era assunto de mulheres. Acabadas as compras, minha mãe voltou logo com o meu pai na carroça do António Capador que tinha ido vender um porco. Mas a minha tia ficava ainda com o meu tio, porque precisavam de ir visitar a D. Aurélia, que era uma pessoa importante e merecia por isso uma visita para se ser também um pouco importante. E como ficavam e só voltavam na camioneta da carreira, a minha tia pediu a minha mãe que lhe trouxesse a galinha, para não andar com ela o dia inteiro num braçado, que até se podia partir. De modo que disse:
- Tu podias levar-me a galinha, para não andar com ela o dia inteiro num braçado, que até se pode partir.
Minha mãe trouxe, pois, as duas galinhas na carroça do António Capador, e a minha tia ficou. E quando à tarde ela voltou da feira, foi logo buscar a sua. Minha mãe já a tinha ali, embrulhada e tudo como minha tia a deixara, e deu-


lha. Mas minha tia olhou a galinha de minha mãe, que já estava exposta no aparador, e, ao dar meia volta, quando se ia embora, não resistiu:
- Tu trocaste mas foi as galinhas.
Disse isto de costas, mas com firmeza, como quem se atira de cabeça. E minha mãe pasmou, de mãos erguidas ao céu:
- Louvado e adorado seja o Santíssimo Nome de Jesus! Então eu toquei lá na galinha! Então a galinha não está ainda conforme tu ma entregaste! Então tu não vês ainda o papel dobrado? Então não estarás a ver o nó do fio?
Estavam só as duas e puderam desabafar.
- Trocaste, trocaste. Mas fica lá com a galinha, que não fico mais pobre por isso.
Minha mãe, cheia de compreensão cristã e de horror às trovoadas, ainda pensou em destrocar tudo outra vez. Mas aquilo já ia tão para além do que Cristo previra, que bateu o pé:
- Pois fico com ela, não a quisesses trocar. Só tens gosto naquilo que é dos outros.
E daqui para a frente, disseram tudo. Minha tia saiu num vendaval, desceu as escadas ainda aos berros, de modo que minha mãe teve ainda de vir à janela dizer mais coisas. Minha tia foi indo pela rua adiante, sempre aos gritos, e de vez em quando parava, voltando-se para trás para dizer uma ou outra coisa em especial a minha mãe, que estava à janela e lhe ia também respondendo como podia. Até que a rua acabou e minha mãe fechou a janela. E aí começou o meu pai, quando lá longe minha tia lhe passou ao pé e meu pai lhe perguntou o que havia e ela lhe disse o que havia, chamando mentirosa a minha mãe. Meu pai então disse:
- Mentirosa é você.
E começou a apresentar-lhe os factos comprovativos do que afirmara e que já tinha decerto enaipados de outras ocasiões, porque não se engasgava:
- Mentirosa é você e sempre o foi. Já quando você contou a história do Corneta, andou a dizer que
- Mentiroso é você, como sua mulher. Uma vez na padaria a sua mulher disse que
E daí foram recuando no tempo ……

Vergílio Ferreira, Contos,

Proposta de final para o conto:

-Mentirosa é você.
E começou a apresentar-lhe os factos comprovativos do que afirmava e que já tinha decerto enaipados de outras ocasiões, porque não se engasgava:
-Mentirosa é você e sempre o foi. Já quando contou a história do Corneta, andou a dizer que ele andava a roubar.
-Mentiroso é você, como sua mulher. Uma vez na padaria a sua mulher disse que vossemecê lhe batera.
E daí foram recuando no tempo… até à época em que eram jovens. Aí a coisa começou a aquecer e, palavra puxa palavra, disseram coisas desagradáveis uns aos outros. A mulher, depois de ouvir este alarido, veio também para o barulho. Entretanto chegou o marido da primeira e continuaram a discutir. Começou a chegar a vizinhança e entre eles o vigário da terra que os chamou à razão, que aquilo não passava de um mal entendido e não havia motivo para aquela discussão, uma vez que se tratava apenas de uma peça sem importância. Ouvindo as palavras certas resolveram esquecer e ficar amigos como uma família deve ser.
Teresa Manso
Nota: Este final foi votado pelos elementos do grupo.


Com vontade de aprender
voltei à escola outra vez
para falar bem e ler
e escrever bem português

Na oficina de leitura escrita
duas vezes por semana
numa aula muito bonita
dirigida pela professora Susana

Na cidade de Quarteira
na escola Laura Ayres
saber de certa maneira
ocupa melhores lugares

É à segunda e à sexta-feira
três horas de muita alegria
onde a gente de certa maneira
colocamos as conversas em dia

Quero aumentar meus saberes
mesmo estragando as canetas
não quero dar tantos erros
e nem trocar tanto as letras

Às vezes olho-me ao espelho
e fico olhando para mim
procurei se valia a pena, e ele
e ele respondeu-me que sim

Falamos, lemos e escrevemos
e às vezes lemos em voz alta
e aquilo que aqui aprendemos
a mim faz-me tanta falta

Anda a filha e a mulher
para me fazerem companhia
para eu agora aprender
aquilo que não sabia

É a Amélia, a Emília e eu
é o Zé e a Teresa
é a Zélia e o Abreu
é o Adam e o Lino
neste pequenino
aprendendo a língua portuguesa
José Manuel Duarte Filipe

Biografia
Nasci na encosta da serra
onde tudo era um encanto
comecei cavando a terra
mais tarde fui para a guerra
para uma terra distante
Guardei gado, fui pastor
no campo fiz quase tudo
agora sou ladrilhador
e as gotas do meu suor
regaram o chão bem fundo
Na Suíça fui emigrante
para ganhar o meu pão
onde o perigo era constante
espreitava em cada canto
trabalhava debaixo do chão
Agora moro em Quarteira
linda terra à beira mar
é amiga, companheira
e sempre para a vida inteira
é aqui que eu quero ficar
Fiz minha casa à esquadria
lindo lugar onde vivo
cá dentro escrevo poesia
e agora com muita alegria
vejo-a publicada num livro
Tenho um filho licenciado
uma filha ainda a estudar
sinto-me recompensado
por ter a oportunidade
de no canudo espreitar
Tenho uma netinha querida
com três aninhos de idade
quando a mente está dorida
ela adoça a minha vida
com muita facilidade
José Manuel Duarte Filipe

Estrelas de Esperança
Não conheces brinquedos, não tens pão nem escola,
É negado p` “los grandes”,o amor, o carinho…
Miseráveis os trapos, desajeitada a bola
Que chutas descalço em minado caminho!

Uma ferrugenta lata é o tambor, e que bom!
Um hino à família tragada pela guerra…
É mágico, sedutor e inconfundível o som
Mais puro, genuíno, da bela e quente terra!...

Pobre menino de pele massacrada e escura
Tens todo o encanto, a beleza, a candura.
De que se reveste o homem enquanto criança!

Querido ser humano, inocente, belo, puro,
Que tenhas sempre paz, amor e pão no teu futuro
E um céu de Natal com estrelas de esperança.

João Francisco da Silva
Verão de S. Martinho

Em Novembro, o nevoeiro,
Envolveu um cavaleiro
Jovem, mas cheio de brio.
Indo na sua montada,
Avistou junto da estrada,
Um velho com fome e frio

Nada nos bolsos ficou!
Tudo ao velhinho doou,
Ficando a pensar depois
No muito frio que estava
Desembainhou a espada
Fez a própria capa em dois.

Martinho, deu a metade
Ao velho, com tal bondade,
Que a recebeu contente!...
-Aceite-a meu amigo,
Que o pouco bem dividido,
Chega para muita gente

É uma história já antiga!
Mas ainda há quem,
Que o mendigo do caminho.
Elevou as mãos em prece,
E um milagre acontece:
Nasce o verão de S. Martinho

Oiço vozes murmurar.
Quando para p’ra pensar
No mendigo do caminha.
Se a bondade morrer.
Na juventude a crescer,
Morre o verão de S. Martinho.

Graziela Vieira


3 comentários:

José disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
José disse...

Obrigada professora Susana
pelo que tem feito por nós
em algumas horas por semana
vai dando voz à nossa vós

Não foi tempo perdido
ao ter passado por aqui
muito tenho aprendido
e posso agradecer a si

Permita-me que lhe dê
um abraço,
José.

Susana Neves disse...

Muito obrigada José!
Mas deixe-me que lhe diga: nunca conseguiria fazer este trabalho sozinha! Vocês são a alma de tudo isto...