terça-feira, 18 de maio de 2010

“Os Dois Reinos” por Li Xin

Há muito, muito tempo, num pequeno reino, que sempre sofrera ataques dum reino vizinho, vivia um pretoriano. Esse homem trabalhava desde os seus dezoito anos, tendo como função defender o palácio e a família real.

Mas, hoje, esse homem exemplar não se encontra a vigiar o palácio, estava num bar onde bebia incessantemente, devido à decisão do rei.

No dia anterior, um diplomata do reino vizinho, acompanhado pela cavalaria, dirigiu-se ao palácio do pequeno reino para participar numa conferência diplomática. Enquanto, o diplomata era recebido pelo rei, o povo mantinha-se em frente ao palácio atento a todos os movimentos. As gentes do povo conversavam entre elas. Algumas preocupavam-se com a reunião, não sabiam qual seria a decisão tomada, outras discutiam, pois estavam preocupadas com o futuro do pequeno reino.

Três horas depois, a decisão do rei foi anunciada às gentes do pequeno reino. O rei aceitou o pacto de não agressão, mas decidiu, também, que o pequeno reino deveria entregar uma parte da sua riqueza ao seu reino, isto todos os anos, e que a princesa do reino pequeno deveria casar-se com o príncipe do reino vizinho.

Para as gentes do povo foi uma aflição. A princesa, de quem o povo gostava e respeitava, deixaria o pequeno reino. Mas, por outro lodo, foi também uma alegria pois a guerra iria terminar. Esta era a única forma do pequeno reino sobreviver.

Entretanto, o homem continuava a beber no bar.

Está a anoitecer, o sol pôs-se. Desde o início da tarde que as tropas da princesa, os seus soldados, as aias e o diplomata estam a caminho do reino vizinho.

-BANG- um barulho intenso se faz ouvir. A terra, bruscamente, treme.

O homem deixa de beber e levanta-se imediatamente. Neste momento, os barulhos continuam e no bar os copos e as garrafas caiem ruidosamente.

“A princesa e as suas tropas! Tenho que ir ver o que se passou”. Pensa esse homem. Apressa-se para sair do bar, chega rapidamente a casa, pega na sua espada e procura o seu cavalo, pois as tropas da princesa estão distantes do pequeno reino. Encontra o seu cavalo que está ao sol nas traseiras de casa.

O cavalo é todo preto, com excepção da crina que é cinzenta, tem, também, uma cicatriz branca no meio da testa. O cavalo é silencioso e inteligente.

Esse homem monta o seu cavalo e ambos partem, a grande velocidade para oeste.

O cavalo galopa cada vez mais rápido, o vento sopra fortemente; o tremor de terra é cada vez mais violento e os gritos estridentes soam cada vez mais alto.

Cerca de vinte minutos depois, esse homem, finalmente, chega ao lugar onde se encontram as tropas da princesa. O homem fica petrificado, pois há numerosos corpos no chão, a princesa medrosa encontra-se na sua carruagem, junto a um gigante irado que tinha pelo menos, cem metros de altura.

Esse gigante era robusto e louco, tinha cabelos rebeldes e pretos e uns olhos negros profundos. Segurava um bastão de madeira e ,debaixo do luar, parecia um monstro enorme e diabólico.

“Não consigo lutar com um gigante, mas tenho de salvar a princesa! O é que eu posso fazer?” Pensou o homem.

Enquanto esse homem pensava, em cima do seu cavalo, o gigante começou a observá-lo e de repente correu na sua direcção. O homem começou a puxar o cavalo para a direita sem pensar, ao mesmo tempo que o gigante se aproximava. Nesse momento, encontrou uma agulha gigante e brilhante que cravou na cabeça do gigante.

Mas, isso de nada serviu! O gigante ainda ficou mais enfurecido. Ele recomeça a atacar o homem, mas este consegue, mais uma vez, evitar o ataque. De repente , o homem tem uma ideia! Salta do cavalo e sussurra-lhe ao ouvido o plano que acabara de engendrar. O cavalo, que era muito inteligente, percebendo de imediato o plano, começa a andar à volta do gigante, fazendo com que este se distraia do homem. Em simultâneo, estando o gigante distraído, o homem começa a trepar pelo gigante, sem que este se aperceba. Sobe lentamente pelas pernas, pelas costas, pelo pescoço até que chegar à cabeça do gigante.

Aí, no meio do cabelo mal cheiroso, encontra a agulha gigante que poucos minutos antes cravara na cabeça do gigante. Fazendo um grande esforço, consegue arrancar a agulha.

É nesse momento, que um feixe de luz verde, que emana da agulha, atinge a princesa. Ouve-se um barulho ensurdecedor e, num clique, a princesa transforma-se numa burra branca. Na verdade, não era uma burra branca, mas sim cinzenta clara com um rabo castanho.

Quando o homem retira a agulha, o gigante recupera as suas forças e agitando-se consegue fazer com que o homem caia. Mas hoje, era o seu dia de sorte, pois conseguiu cair sentado no seu cavalo, embora tenha alguns ferimentos nas costas.

O homem desmontando o cavalo, aproxima-se da princesa, ou seja, da burra. A princesa burra parece estar confusa. Nesse preciso momento, o cavalo toca a agulha com o nariz.

“Se calhar ainda me vai ser útil”, pensa o homem, guardando a agulha no cinto. Depois, senta-se no chão e pensa no que deverá fazer agora.

“É melhor voltamos ao reino, mas a princesa burra está confusa e não consegue andar!”

-BONG- Novo barulho, a terra treme e interrompe os pensamentos do homem.

Como que por magia, o gigante, que coça a cabeça, agradece ao homem, e pengunta-lhe se o pode ajudar.

Esse homem tem uma ideia! Pede ao gigante se os pode levar para o reino. O gigante aceita. Põe o homem, o cavalo e a princesa transformada em burra em cima da cabeça. Embora a cabeça do gigante cheire mal, todos se sentem felizes com a ideia do homem.

O gigante corre velozmente em direcção ao reino. Pouco minutos depois, já próximos do reino, sentem que algo está mal, pois o ar é gélido e o castelo que se vê ao longe é negro como a noite.

De repente o ar ganha um cheiro insuportável. Todos os edifícios, todas as ruas, todas as plantas, todas as pessoas, todos os soldados, o castelo e todo o reino estão transformados em gelo.

Nesse momento, a princesa, isto é a burra, recupera as forças, mas transforma-se também, em gelo.

O homem cerra os punhos e começa a pensar profundamente.

-Vamos ao reino vizinho! – ordena o homem.

O gigante põe outra vez o homem, o cavalo e a princesa burra, agora transformada em cubo de gelo, em cima da cabeça e corre.

A calamidade ainda não terminou, uma mutação começa no corpo da princesa. A maior parte do seu corpo torna-se castanha, em vez de cinzento claro e o rabo castanho assim como a parte de trás do corpo ficam vermelhos.

O gigante corre mais rápido, pois no reino vizinho existem médicos e mágicos que conseguirão ajudar a princesa.

Poucos minutos depois, chegam à praia.

O reino vizinho situa-se no outro lado do mar, num ilha grande. O homem precisa de atravessar o mar.

O gigante consegue pedir emprestado um barco a um pescador gigante. De imediato o pescador arrasta o barco para o mar e chama o homem e os outros para entrarem no barco.

De repente, aparecem uns polvos gigantes que atacam e destroem todos os barcos e todos os gigantes. Os barcos afundam-se e para piorar a situação os polvos estão protegidos por bruxaria, anulando assim os ataques dos gigantes.

O homem também quer lutar, mas sente que é inutil. O cavalo parece adivinhar o pensamento do homem e aponta, com a cabeça, para a agulha.

O homem olha para a agulha, pensa que esta ainda está enfeitiçada. Dá a agulha ao gigante. O gigante segura-a, lança-a com força e esta pica profundamente a cabeça de um dos polvos. Esse polvo, bruscamente, incha e, poucos segundos depois, explode.

Com a morte deste polvo, todos os outros fogem para as profundeza do mar.

Embora tivesse ganho esta luta, todos os barcos se afundam.

Nesse momento, aparece o chefe da aldeia gigante, agredece, e, compreendendo a situação do homem, leva-os para sua casa. Já em sua casa, o chefe mostra o seu animal favorito, um dragão amarelo de tamanho médio, isto é ,com dez metros de altura. O chefe empresta o dragão ao homem para salvar os gigantes.

Esse homem e outros montam o dragão, deixam ficar o gigante na sua aldeia, porque o seu tamanho não lhe permite viajar nas costas do dragão.

O dragão deixa devagar a terra para subir ao céu e quando atinge determinada altura acelera.

Rapidamente, chegam à ilha do reino vizinho. O dragão continua a voar pelas florestas e planícies até que conseguem avistar o castelo do reino vizinho.

-Voa para abaixo – disse o homem.

O dragão começa a descer, contudo, um feixe de luz preto caótico, que surge de um monte, envolve todo o reino vizinho e , num momento, o reino vizinho desaparece.

O homem olha para o monte e vê uma enorme cratera. Pede, então, ao dragão que o deixe na cratera.

O dragão voa com ajuda dos últimos raios solares, lentamente e cuidadosamente.

O dragão atinge o chão de mármore. A cratera era um espaço circular, com luzes verdes nas paredes. Em frente do homem, há um portão vermelho da mesma altura da parede que é vinte vezes a altura do homem.

Enquanto o homem se apressava a entrar, o portão abre-se lentamente. Já passado o portão, o homem vê no fundo dum quarto um trono, onde está sentado um velho. O velho, que era mesmo muito velho, tinha 300 anos, 500 anos, 800 anos ou mais. A sua pele era mais encarquilhada que o tronco de uma velha árvore, o seu cabelo era mais seco que a areia e os seus olhos eram mais maléficos que os olhos do diabo.

O homem puxa a espada rapidamente, aproxima-se do velho e corta-o, mas a espada atravessa o velho sem o magoar, parece uma assombração.

O velho ergue o dedo indicador: e o homem e a princesa começam a flutuar no ar e o dragão não se consegue mover.

O homem debate-se, mas não consegue fazer nada.

- Finalmente, vocês vieram – disse o velho com um som seco. – Estava à procura de uma bruxaria que me tornasse jovem, mas para isso preciso do sangue fresco de uma princesa pura, uma cabeça viva de um dragão e um coração quente de um homem corajoso.

O velho ergue outra vez o dedo, a princesa, ou seja, a burra, transforma-se em princesa e o tom vermelho do seu corpo dirige-se para o velho. Esse vermelho é o sangue da princesa.

- Não! – grita o homem, que não consegue fazer nada.

Mas, hoje continuava a ser o seu dia de sorte.

O cavalo, já livre, relincha e a sua cicatriz começa a brilhar enchendo todo o espaço de luz. O cavalo desparece e um unicórnio surge no seu lugar.

O unicórnio, envolvido de uma luz suave, relincha novamente, anula as bruxarias que paralisam o homem e o dragão; o velho, assustado, levanta as mãos e emite um feixe de luz preto. Mas, de repente, a luz suave do unicórnio sobrepõem-se à luz preta. O velho é atingido e transforma-se num dragão com três cabeças.

As suas três cabeças aproximam-se e criam uma chama com três cores. Esse dragão tenta atingir o unicórnio, mas não consegue. Ao mesmo tempo, a luz suave rodeia o homem e a sua espada, no entanto, este consegue flutuar e atingir o dragão no meio das três cabeças.

Nesse momento, o dragão das três cabeças, transforma-se numa pedra.
...

Após a morte do velho, tudo o que tinha sido atingido pela sua bruxaria volta ao normal.

E o reino pequeno e o reino vizinho? Também eles voltam ao normal, voltam a reafirmar o pacto de não agressão e festejam assim durante três dias o casamento da princesa, que misteriosamente tem agora uma pequena cicatriz no meio da testa.

E o homem? O homem começa a viajar pelo mundo com o seu dragão amarelo e a sua mulher. E quanto tempo demora essa viagem? Como é hábito dos contos infantis, essa viagem demora uma eternidade.

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