terça-feira, 18 de maio de 2010

“Nas Asas do Destino” por Iromisa Pereira

Fortelândia, século XVI. Nesta época, algumas pessoas eram vistas como bruxas e feiticeiros. Era uma época de conflitos, de pobreza e aqueles que eram considerados bruxas e feiticeiros não eram aceites. Foi nessa altura que, uma mulher deu à luz uma menina, a quem deu nome de Samira. Infelizmente, a mulher não resistiu ao parto e acabou por morrer, depois de dar à luz. Assim sendo, Samira foi criada pela sua avó.
Passados quinze anos, Samira, apesar de ser pobre, era muito bonita e vestia-se muito bem. Mas, escondia um segredo e estaria perdida se ele fosse revelado, por isso Samira sempre tentou mantê-lo em segredo.
O que mais intrigava Samira era o facto de ela não saber quem era o seu pai. Quando ela perguntava à sua avó onde o pai vivia, ou se o pai estava vivo ou morto, a única resposta que a sua avó lhe dava é que era melhor certas coisas serem mantidas em segredo do que serem reveladas. Quando a avó dizia isso, Samira ficava muito triste porque o que ela mais desejava, neste mundo, era conhecer o pai ou obter alguma informação sobre ele. A única coisa que ela sabia era que o pai se chamava Frederico Pascal.
Assim, decidida a saber mais sobre o pai, numa noite de lua cheia, Samira decidiu deixar a avó para ir à procura do pai. Pôs alguns mantimentos na sacola e um pouco de água na garrafa, decidida, apanhou o cavalo e começou a ir em direcção à floresta, afastando-se cada vez mais da aldeia.
Samira encontrava-se na floresta sem saber para onde se dirigir ou como descobrir o paradeiro de seu pai. Como já era de noite, ela decidiu dormir um pouco, porque o dia seguinte seria muito longo. Mas, o seu descanso foi perturbado pelo ruído dum animal selvagem. Assustada, ela acordou e começou a arrumar as suas coisas. De repente, ela viu um grande tigre, como não tinha tempo de ir buscar o cavalo, correu o mais depressa possível, mas o tigre seguia-a e ela escondeu-se numa gruta sem saída. Quando o tigre se preparava o para ataque, ela ouviu uma voz que disse:
-Baixa-te – assim fez ela e quando abriu os olhos viu o tigre com um punhal cravado no meio da testa e um jovem que começou a andar na sua direcção. O jovem perguntou-lhe:
-Estás bem?
-Sim! – Respondeu ela ainda um pouco assustada.
-Mas o que é que uma menininha como tu anda a fazer a esta hora na floresta? – Perguntou o jovem.
-Não é da tua conta! – Respondeu Samira bruscamente.
-Bem, eu só estava a tentar ajudar-te, mas se queres ficar aí tudo bem. Eu vou-me embora! -Respondeu o jovem.
-Está bem, mas antes podias dizer-me se há alguma vila por aqui? – Perguntou Samira.
-Há uma vila perto daqui, aliás, é onde eu moro. Se me queres acompanhar, estás convidada. - Disse o jovem.
Samira muito aflita respondeu:
-Então, eu vou contigo, pois não me apetece ficar nem mais um segundo nesta floresta. Já agora chamo-me Samira e tu?
Chamo -me Elisandro, prazer em conhecer-te. – Respondeu o rapaz.
-O prazer é todo meu e obrigado por me socorreres.Desculpa por ter falado contigo daquela maneira!
-Não foi nada! – Respondeu o jovem timidamente.
Assim, partiram juntos fazendo todo o percurso, para a aldeia, em silêncio. Quando chegaram, Samira ficou impressionada com a beleza do local, pois naquela época de guerra era difícil encontrar um lugar assim. Samira ficou muito tempo a sentir a brisa do vento até que Elisandro a chamou.
-Samira não queres entrar? Aqui fora está muito frio.
-Sim. E tu vives sozinho? – Perguntou um pouco preocupada.
-Sim, mas não te preocupes, porque não vou fazer-te mal.
Receosa Samira entrou. A casa era simples e organizada, apesar de Elisandro ser rapaz.
-É melhor ires descansar. – Aconselhou Elisandro.
-Sim, mas onde vou ficar? – Perguntou Samira
-Podes ficar com aquele quarto, ali à tua direita.
Samira entrou no quarto, deitou-se em cima da cama e acabou por adormecer.
O sol começou a nascer iluminando o quarto onde Samira se encontrava e a claridade penetrou nos seus olhos. Samira acabou por acordar e ficou admirada por ter dormido tanto. Apressada, vestiu-se, saiu do quarto e foi ter com Elisandro.
-Bom dia! – Disse Samira.
-Bom dia, dormiste bem? - Perguntou Elisandro.
-Sim, mas agora tenho de ir.
-Mas para onde tu vais?
(Samira tentava encontrar uma desculpa para dar a Elisandro; no entanto, quando viu que ele a olhava nos dos olhos não teve coragem de lhe mentir e optou por lhe dizer a verdade)
-Vou à procura do meu pai. – Disse Samira tristemente.
-Oh! Mas, o teu pai perdeu-se? Perguntou Elisandro.
-Não, eu não o conheço – disse Samira triste.
-Deve ser muito triste não o conhecer!
-Pois é, mas o que interessa agora é que vou fazer de tudo para o encontrar. – Afirmou convicta Samira.
-Mas, tens alguma pista por onde começar?
-Para ser sincera não, a única coisa que sei é que o meu pai se chama Frederico Pascal.
-Esse nome é muito estranho, mas já o ouvi em algum lado.
-Tenta ver se te lembras. - Disse Samira esperançosa.
-Já me lembro! Algumas vezes, a minha mãe contava-me histórias sobre feiticeiros. E, numa dessas histórias, a minha mãe falou de um Frederico Pascal que era um dos mais poderosos feiticeiros.
Ao ouvir a palavra feiticeiro, Samira arregalou os olhos. Muito interessada, quis saber o fim da história.
-Mas sabes o que lhe aconteceu? – Perguntou Samira.
-Bem, segundo que a minha mãe me contou, ele era um feiticeiro do bem e para proteger os outros companheiros dos feiticeiros do mal, usou o seu poder para retirar os poderes dos feiticeiros do mal e selou-os. E, para ter a certeza que ele e os seus companheiros ficariam a salvo, utilizou o resto das suas forças e construiu uma barreira em volta da ilha. Depois, afundando-a no fundo do mar, porque só assim ele tinha a certeza que seria o melhor. – Contou Elisandro.
-E o que aconteceu a seguir? – Perguntou Samira
-Não sei, além disso é uma história! – Afirmou Elisandro.
-Mas, sabes alguma coisa sobre essa ilha? – Perguntou cheia de curiosidade Samira.
-Bem, ouvi dizer aqui na aldeia que essa ilha deixa de estar nas profundezas do mar uma vez em cada cem anos.
-Alguém a viu alguma vez? – Perguntou muito aflita Samira.
-Pelo que sei não. Alias, como já disse há pouco é só uma história que todas as crianças daqui da vila conhecem.
-De qualquer forma obrigada por aquilo que me contaste. - Agradeceu Samira
-Então, o que vais fazer?
-Bem, eu vou- me embora! Tenho que continuar à procura do meu pai. – Afirmou convicta Samira.
-É uma pena não poder ajudar-te mais. - Lamentou-se Elisandro.
-Tu já me ajudaste bastante. Mas, agora tenho mesmo de ir.
E assim, ambos se despediram:
-Bem, então, até qualquer dia. - Disse Samira.
-Sim, um dia ainda haveremos de nos voltar a encontrar. – Afirmou convictamente Elisandro.
-Então, isto é um até breve! – Respondeu, com um sorriso rasgado, Samira.
-Talvez! – Disse Elisandro.
Deste modo, Samira partiu com a mente ocupada, pensando na história que Elisandro lhe tinha contado. Pois ela tinha a certeza que não era só uma história, porque ela sabia que os feiticeiros existiam, já que ela era a prova viva disso. Continuou a andar sem saber para onde ir. De repente, apercebeu-se que se encontrava no meio duma praia.
Foi quando subitamente sentiu a terra a tremer e passados alguns segundos o tremor de terra parou. Samira começou a olhar para todos os lados. Subitamente, viu uma ilha que anteriormente não estava visível. Cheia de curiosidade, nadou até à ilha misteriosa. Estranhou muito o facto da ilha ser maior do que parecia vista de longe. Pareceu-lhe ser uma ilha agora deserta, pois as casas e as árvores da floresta estavam destruídas, há muito tempo. Estava ela a admirar a ilha, quando viu um raio de energia que seguia uma criança que vinha na sua direcção. Correu para junto da criança, mas acabou por ser atingida pelo raio de energia.
Felizmente, o choque não foi muito grande, não se magoou e acabou por conseguir ajudar a criança. Passados uns minutos ouviu um riso maléfico vindo de cima, e assim que a criança ouviu esse riso agarrou-se a Samira e começou a chorar. Samira cheia de coragem olhou para o céu e viu um homem que não tinha um rosto amigável.
-Pensaste que podias fugir de mim. – Afirmou apontando para a criança e descendo ao mesmo tempo.
-Mas, quem és tu? - Perguntou Samira.
-Eu sou aquele que um dia vai governar o mundo e que será o mais poderoso feiticeiro. Podes chamar-me Edmundo. – Disse ele.
-Por que razão andas a perseguir esta pobre criança? – Perguntou Samira.
-É a última hipótese para poder libertar os meus colegas que estão presos, há muito tempo. – Afirmou o homem.
-Como assim a última hipótese? – Perguntou Samira intrigada.
-Preciso da última alma, pura e inocente, desta ilha. Pois ela é a única sobrevivente? já que sacrifiquei os outros! – Disse Edmundo orgulhoso.
-Isso não irá acontecer! – Disse Samira corajosamente.
-O que pensas que podes fazer perante um feiticeiro como eu? – Perguntou Edmundo divertindo-se com a situaçao.
-O que for preciso! Já agora devo dizer-te que eu também sou uma feiticeira, tal com tu! – Afirmou Samira triunfante.
-Isso é impossível, pois eu transformei todas as pessoas da ilha em pirilampos, até o próprio rei! - Disse Edmundo.
-Pelos vistos enganaste-te, visto que ainda resto eu e tenho a certeza que te vou vencer. - Disse Samira convicta.
-Eu não vou perder, pois tu és apenas uma menina. - Disse ele cheio de raiva.
Assim, se prepararam para a luta. Edmundo era muito mais hábil a usar os seus poderes do que Samira, por isso ela estava em desvantagem em relação ao feiticeiro. Embora, Samira estivesse a defender muitos golpes de Edmundo, o último acabou por fazê-la desmaiar.
-Chegou o teu fim! – Afirmou Edmundo preparando-se para o golpe final.
Contudo, quando ele se preparava para tal ouviu alguém dizer:
-Onda explosiva!
Edmundo virou-se para ver quem era, mas foi surpreendido por uma onda de energia que o fez afastar-se de Samira.
Samira começou a recuperar a consciência e quando viu quem a estava a tentar ajudar perguntou:
-Elisandro, o que fazes aqui? Como me encontraste?
-Bem, eu vim à tua procura! Quanto à forma como te encontrei posso dizer-te que eu apenas me deixei levar pelo meu coração! - Respondeu Elisandro.
-É melhor ires-te embora, porque é perigoso estares aqui. - Disse Samira aflita.
-Mas, eu vim para te ajudar e não adianta tentares esconder os teus poderes, porque eu sei quem tu és. – Afirmou Elisandro.
-Como sabes, se eu nunca cheguei a contar-te o meu segredo? - Perguntou Samira intrigada.
-Porque, quando eu te contei a história da ilha, tu demonstraste muita curiosidade. Já reparaste que esta é a tal ilha de que eu te falei. - Afirmou Elisandro.
Porém, não tiveram mais tempo para falar, porque Edmundo já estava de pé para lutar novamente.
-Oh! Vejo que arranjaste um amiguinho para te ajudar. - Disse Edmundo cinicamente.
-Isso agora não interessa, vamos pôr fim à luta. – Disse Elisandro.
- Elisandro, como pretendes lutar? - Perguntou Samira.
-Com a minha espada! – Dizendo isto desembainhou a espada e como por magia esta triplicou de tamanho.
-Não sei se sabe, mas esta espada é muito poderosa e foi uma herança do meu pai. – Afirmou Elisandro emocionado.
-Então, vamos a isso! – Disse Samira.
Assim, começaram novamente a luta, apesar de estarem em vantagem numérica, Edmundo continuava a ser o mais forte.
Entretanto a criança que até agora chorava e tremia de medo viu um pirilampo e exclamou:
-Mãe! Mãe! - Uma voz que apenas a criança ouvia disse-lhe repetidamente:
-Segue-me, segue-me – Assim foi, a criança seguiu a voz até encontrar outros pirilampos que se encontravam junto de um arco com flechas. A criança aproximou-se do arco e das flechas e apanhou-os agradecendo a todos os pirilampos. Desta maneira, correndo, foi para junto de Samira.
Enquanto isto acontecia Samira e Elisandro continuavam a lutar, contudo já estavam cansados. A criança chamou Samira e entregou-lhe o arco e as flechas. Samira, intrigada, questionou com o olhar a criança, mas esta apenas lhe retribuiu um sorriso.
Samira pegou no arco e nas flechas e Elisandro empunhou a sua espada, ambos se puseram em posição de ataque. Samira soltou uma flecha, que tinha uma energia muito poderosa, e também Elisandro lançou a sua onda explosiva. Tudo isto aconteceu tão de repente que Edmundo nem teve tempo para se defender, acabando todos estes feitiços por atingi-lo no peito transformando-o em pó.
Deste modo, todos os feitiços, que já o falecido Edmundo tinha lançado, desapareceram. Todos os pirilampos estavam admirados por voltarem à sua forma humana. Houve uma grande algazarra, pois todos estavam muito felizes. Agradeceram a Samira e a Elisandro, os seus salvadores.
Enquanto festejavam viram um homem aproximar-se deles. Este homem disse:
-Obrigado, a criança já me contou tudo!
-Não foi nada! – Disseram ambos.
-Digam-me o que posso fazer para vos recompensar? - Perguntou o homem
-Não precisa de nos agradecer! - Disse Samira com um enorme sorriso estampando no rosto.
O senhor gostou muito do sorriso da Samira, principalmente, porque o fazia lembrar-se de alguém.
-Sabes, o teu sorriso faz-me lembrar a minha amada Isabel!
-Como é que o senhor se chama? – Perguntou Samira curiosa.
-Frederico Pascal - Disse ele.
Samira começou a chorar de felicidade e foi abraçar Frederico.
Frederico não percebeu por que razão Samira o abraçara, mas correspondeu ao abraço.
-Pai, nem acredito que te encontrei! - Disse Samira feliz.
Frederico ficou surpreendido ao ouvir Samira chamar-lhe pai e foi nesse instante que se lembrou que a sua amada Isabel lhe tinha dito que estava grávida, mas nunca pensou que fosse verdade. Frederico abraçou a filha com todo o seu amor e não contenve as lágrimas. Elisandro ficou feliz por Samira ter encontrado o pai.
No dia seguinte, assim que o sol nasceu, a ilha voltou a afundar-se no mar e o pai de Samira decidiu deixar definitivamente a ilha e ir embora com a filha para recuperar o tempo perdido.
Assim sendo, voltaram para casa da avó de Samira e quando a avó viu que a neta estava bem e que tinha encontrado o pai ficou muito feliz. Para celebrar esse dia tão especial, a avó de Samira decidiu fazer um jantar especial.
Depois do jantar, Samira e o pai ficaram a contemplar as estrelas até que o pai decidiu quebrar o silêncio.
-É uma pena a tua mãe não estar aqui! - Exclamou Frederico tristemente.
-Mas certamente ela esta feliz por estarmos aqui - Disse Samira.
Depois desse dia nada foi igual, tudo brilhou para Samira. Isto é uma prova que se acreditarmos e tivermos fé nos nossos sonhos, um dia eles se realizar-se-ão.

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